Os Tempos Antigos Falam

O CAMINHO DO GRAAL – TEXTOS COMPLEMENTARES – 18 de agosto de 2022

Original tcheco: Staré Časy Prehovárajú · cesta-gralu.cz

Nada permanecerá oculto nas areias do tempo,

mas virá o tempo em que soprará um vento poderoso,

para afastar os depósitos e mostrar os vestígios,

que se gravaram no curso da história desta Terra

Do mesmo modo, quando o ser humano deixa o seu corpo, nada se perde nem se dissolve, mas a sequência dos acontecimentos continua a fluir. Embora o tempo tenha soterrado muitos nomes e estes se tenham perdido da consciência dos habitantes da Terra, tudo prossegue em seu ciclo. Se isso serve à humanidade para instrução e ajuda, é permitido descerrar o véu atrás do qual se ocultam muitas histórias dignas de serem seguidas…

Hoje já ninguém conhecerá o sábio mestre Kleofas, que outrora se distinguia pela sabedoria e pela boa palavra. Vinham ter com ele pessoas de toda a redondeza. Dizia-se que o mestre era dotado de capacidades supraterrenas e que conseguia dirigir a sequência dos acontecimentos de tal modo que a verdade sempre vinha à tona e as coisas se mostravam sob a luz em que realmente são. Sob a influência do fluido do mestre, muitas pessoas de repente pareciam perder por completo o bom senso e começavam a mostrar os próprios motivos, distantes daquilo que diziam. Muitas vezes o mestre nem precisava estar diretamente presente em algum acontecimento, bastava a sua influência e os acontecimentos se arranjavam por si mesmos. O mestre Kleofas era um homem inteiramente comum, que gostava de ir à natureza e costumava passar nela até várias semanas. Voltava dela um homem ainda mais feliz, que nesse meio-tempo aprendera muito, o que era também em proveito dos que o rodeavam. Não se encontrava ninguém que não gostasse do mestre e que não tivesse vindo alguma vez com um pedido de conselho. O mestre gostava muito de se encontrar com as pessoas e transmitia-lhes do seu conhecimento das estrelas, das leis da justiça, do acontecer da natureza, mas o que Kleofas mais gostava era de falar do Altíssimo, cujo poder e atuação se ocultam por trás de todo acontecer nesta Terra. As pessoas guiavam-se pelos conselhos do mestre e alegravam-se com os efeitos benéficos de seus conselhos sobre a própria vida. O que mais importava ao mestre era o crescimento espiritual de seus semelhantes e a sua independência espiritual. Às vezes, em vez de explicar, deixava as pessoas vivenciarem algo, pois era justamente o vivenciar que lhes abria uma possibilidade melhor de compreensão do que até então era desconhecido

Certa vez, quando fora anunciado um encontro comum com o mestre, vieram várias pessoas com queixas. Diziam respeito a um suposto sábio e homem iluminado, que se deixava chamar Kvan e conseguia dizer às pessoas muitas coisas interessantes. A princípio, o que era dito ou lisonjeava as pessoas, ou lhes falava por sua severidade, mas elas não conseguiam elaborá-lo interiormente, ou apegavam-se a isso. No começo ele passou a falar às pessoas sobre a natureza e as leis que nela vigoram, o que as pessoas conheciam também do mestre Kleofas. Era algo muito semelhante e por isso ninguém tinha a menor suspeita de desonestidade. Muitos estavam até orgulhosos de já conhecerem quase tudo de Kleofas e com entusiasmo difundiam e completavam o que Kvan proferira. Ele agia assim de propósito, pois sabia que o povo nas proximidades do mestre Kleofas era espiritualmente amadurecido e já vivenciara em si mesmo muitas das manifestações das leis da natureza. Exteriormente Kvan também se alegrou com o conhecimento dessas pessoas e convidou-as para a noite, pois aquilo de que lhes falava agora era evidente e claro para todos. Dispunha, porém, de um conhecimento ainda mais elevado, que revelaria somente aos mais perspicazes, que ele mesmo escolheria. Cada um que comparecesse à noite seria avaliado pelo próprio mestre e interiormente ponderado, se era digno de tamanha graça. Aquele que quisesse participar do encontro noturno deveria trazer consigo uma oferenda pelo grande dom espiritual que receberia. Se a oferenda fosse suficiente e os deuses concordassem, esse homem seria iniciado no conhecimento superior

Desta vez foi o mestre Kleofas quem escutou com tensão. Fora-lhe revelado que algo iria acontecer e que seria necessária a sua intervenção, mas ele próprio devia esperar. Exteriormente mostrou a sua disposição para ajudar, mas mais do que isso não podia fazer. Esperava pela sua hora, que haveria de chegar. O relato prosseguiu e o mestre Kleofas continuou a escutar…

Diante da tenda do mestre Kvan reuniram-se à noite muitas pessoas. Não estavam lá sozinhas, mas apareceram também os discípulos do sábio, ou melhor, os seus ajudantes, que de bom grado recolheram as oferendas destinadas ao mestre. Como cada um havia juntado uma quantidade suficiente de víveres e de diversas outras coisas preciosas, os discípulos decidiram que cada uma dessas pessoas poderia participar da noite de iniciação no conhecimento superior

Levaram-nas a um prado ao pé do monte, de onde a voz do mestre ressoava bem. A presença do monte formava um cenário agradável e conferia ao discurso do mestre seriedade e um poder aparente. O mestre falava às pessoas dos muitos ajudantes que as rodeiam, nomeando os mais elevados com nomes até então desconhecidos para elas, bem como dos fios com os quais as próprias pessoas estão ligadas. Num via isto, noutro aquilo. Falava também dos fios escuros e sombrios em torno de alguns indivíduos, e ao mesmo tempo dos luminosos, provenientes do reino da paz. Em torno de algumas pessoas percebia a atuação de entes do reino da paz, em outras até do reino da alegria, que se encontra ainda acima do reino da paz. Alguns ficavam maravilhados com o que ouviam e os seus olhos brilhavam como se vissem imagens distantes vindas desses reinos. Cada palavra que vinha de Kvan era para eles talvez o principal e o mais importante, que os separava do grau de iluminação e da possibilidade de se tornarem servidores do mais alto senhor do reino da paz e do reino da alegria. O mestre não se esqueceu de revelar à maioria deles que não era por acaso que justamente eles tinham vindo ali, pois estavam predestinados a tornar-se servidores do filho do mais alto senhor. Para os reunidos não havia felicidade maior do que poder ouvir isso. Alguns deles estavam fora de si de felicidade, davam ao mestre de tudo o que traziam consigo e agradeciam-lhe por sua vida finalmente ter sentido. Não compreendiam como puderam até então viver uma vida tão simples, sem um sentido mais elevado. Ao anoitecer o mestre despediu a todos e solenemente lhes deu a possibilidade de voltar dentro de alguns dias, na lua cheia, ao mesmo lugar. O mestre não se esqueceu de acrescentar que viriam apenas aqueles que o mais alto senhor determinasse e que muitos deles se afastariam desse caminho, porque não estavam preparados para ele. Por ora não deviam esquecer de trazer joias e peles como oferenda pela iniciação nos mistérios, em troca do que o mestre lhes entregaria os seus amuletos pessoais, que os consagrariam ao serviço do filho do mais alto senhor

Entre as pessoas encontraram-se também algumas que não partilhavam esse entusiasmo com os demais e vieram ter com o mestre Kleofas. Não vieram porque o mestre Kvan lhes anunciara que estavam ligadas ao plano mais próximo dos mortos, ou que eram inteiramente comuns, inaptas para algo superior, mas porque sentiam intuitivamente que nem tudo o que o mestre Kvan lhes contava vibrava na verdade e na clareza a cuja atuação estavam habituadas pelo mestre Kleofas. Ao mesmo tempo pediram ao mestre uma oração comum de esclarecimento, cujas palavras o mestre sabia captar tão belamente das alturas. Ele apenas se deixou conduzir pelo seu íntimo, sintonizou-se com as alturas e vieram-lhe as palavras:

Ó Todo-Poderoso e altíssimo Pai!

Recebe a nossa gratidão por todo o Teu fortalecimento e ajuda até agora, com que nos agracias

Agradecemos pela sábia condução e pelos conselhos com que nos guias e nos ajudas

Clarifica, Te pedimos, a nossa mente e dá-nos aquela clareza e direção, para que sejamos capazes de reconhecer a atuação da Tua sabedoria em qualquer forma

Mostra-nos, Te pedimos, o que é verdadeiro, o que provém de Ti, nosso Senhor e Soberano!

Assim seja!

Depois de um momento de silêncio, os que ali estavam reunidos prosseguiram. Sabes, mestre Kleofas, nem todos conseguiram, como nós, suportar o peso das palavras proferidas. Alguns, em torno dos quais o mestre viu fios sombrios e feios e aos quais predisse um destino duro, atormentam-se e afligem-se. Um irmão confidenciou que pretende tirar a própria vida, para que lhe seja permitido começar de novo. Outra irmã, sob o peso do que ouviu, não consegue viver a sua vida cotidiana e rumina constantemente o que ouviu. O mestre Kvan assegurou-nos ao mesmo tempo que, se não nos guiarmos por suas palavras e não nos virmos na luz em que ele nos vê, é justamente então que atuam a partir de nós espíritos maus e deslizamos ainda mais para o grande abismo do que antes. Já agora, porém, sabemos que ele conseguirá facilmente explicar aos outros que, se não aparecermos na próxima reunião, é porque decaímos da altura espiritual que ele percebeu em nós

O mestre Kleofas refletiu por um instante e começou a falar aos reunidos: “Amigos, não desespereis! Por vós, que viestes, não temo de modo algum. Reconhecestes a falsidade do ensinamento do mestre autoproclamado e falso sábio, sobre vós ele não tem poder. O que quer que tenhais feito de errado e condenável numa existência anterior, justamente agora tendes a possibilidade de remi-lo por meio do vosso bom ser. Tudo o que poderia ameaçar esta vossa nova direção certa permanecerá não dito por um verdadeiro mestre espiritual, pois ele edificará sobre as vossas boas qualidades e vos fortalecerá em como vencer o que é mau e sombrio justamente pelo crescimento do que é luminoso e belo. Muito maior preocupação, porém, me causam aqueles que tomam essa coisa errada pela verdade. São como moscas presas numa teia de falsidade e mentira. São tão fracos que se comprazem em sua altura e em imaginários reinos elevados. Constroem, porém, apenas um altar à sua própria preguiça. O pior é que tais reinos eles os formam realmente nos mundos baixos, e estes, depois de sua partida, juntamente com o falso sábio, um dia os aguardarão. Vigiemos ainda juntos esta noite e peçamos pelo seu bem mais elevado. Entreguemo-nos ao serviço do Altíssimo e procuremos caminhos para ajudar estes nossos companheiros de jornada.” Com estas palavras a reunião noturna terminou e mais tarde também se dispersou

O sábio Kvan, entretanto, conquistara novos discípulos, que de bom grado atuavam em novas povoações e difundiam a luz do novo conhecimento. Nesse meio-tempo o mestre fabricava amuletos e uma alimentação especial destinada àqueles que queriam tornar-se ainda mais luminosos e ainda melhores. Os lucros e os bens do mestre Kvan cresciam, e as próprias pessoas não o notavam nem viam como o seu querer se modificava. Agora ele se dirigia apenas para a alimentação especial, para amuletos cada vez mais belos e para o lugar a que cada um se ligava. Das pessoas desapareceram a alegria, o anseio de ajudar o próximo e a sua naturalidade de até então. Com quase todos os assuntos iam agora ter com o mestre e pediam-lhe o seu conselho. Não as incomodava de modo algum que os conselhos se contradissessem, conforme o mestre mudava de opinião sobre o que até então considerara ligado aos reinos da paz e da calma. Cada último conhecimento novo que lhe era revelado era suficientemente digno para que o mestre, por sua causa, convocasse as pessoas e não se esquecesse de lembrar a abundância de víveres para essa reunião

Como que entorpecidos pelo ensinamento do falso mestre, os seus adeptos passavam pela vida. Não comiam outra coisa senão os alimentos das mãos do mestre, que a sua mulher preparava juntamente com outras ajudantes a partir de matérias-primas dos melhores lavradores da região. Com eles ela combinava o melhor preço, para poder vender aos adeptos a alimentação, depois de preparada, até pelo triplo. Se um lavrador não podia fornecer algo na quantidade ou qualidade exigida, era-lhe pago desproporcionalmente menos. Tudo era justificado pela quantidade maior de alimentos que se comprava de uma só vez para as necessidades do mestre. Também os próprios lavradores desmascararam essas pessoas e recusavam-se a vender-lhes. Os próprios pequenos entes que haviam confiado ao mestre o segredo dessa alimentação olhavam para isso com desagrado, até que certa vez um ente superior decidiu retirar esse dom, pois não cumpria a finalidade para a qual fora dado a Kvan. Seria confiado a mãos melhores e mais responsáveis

Mudavam também os seus adeptos. De pessoas até então brandas e agradáveis tornavam-se pessoas orgulhosas e presunçosas. Em cada encontro o mestre lhes contava a que novos céus e alturas se ligavam, enquanto os pobres dos outros estavam nas imediações mais próximas, ou em planos sombrios

No mestre Kleofas o acontecer dos últimos dias quase não deixava vestígio. Ligava-se ainda mais e pedia ao alto a possibilidade de intervir, se o Altíssimo o considerasse oportuno. E a oportunidade não se fez esperar muito…

Durante uma das muitas feiras encontrava-se entre os feirantes também o mestre Kleofas, que precisava repor o seu material de escrita. Também ali vieram os discípulos do falso sábio e convidavam a todos para o meio-dia, quando se apresentaria o mestre Kvan. Esta oportunidade não a deixou escapar nem o próprio mestre Kleofas. Ao meio-dia apareceu no prado acima do mercado o falso mestre, em longas vestes atadas com um cinto. Falava das leis, dos fios com os quais o ser humano está ligado, escolhia ao acaso pessoas sobre as quais dizia diante de todos algumas palavras altamente espirituais. Um deles seria supostamente servidor de um deus dos céus inferiores, o outro, por sua vez, viera do reino da paz em auxílio dos homens

Desta vez a escolha de Kvan recaiu também sobre o próprio mestre Kleofas. Fitou-o e quis pronunciar algo. Não conseguiu, porém, emitir nem um som. Parecia que alguém o impedia. Em redor tudo se iluminou, o que era evidentemente causado pela silenciosa atuação do mestre Kleofas. De repente, porém, abriu-se a boca de Kvan e dela soou, contra a vontade do próprio espírito, uma voz um tanto diferente: “Este homem já fez bastante coisa errada, que a sua alma expiará durante séculos. A sabedoria do Altíssimo confiou-lhe preciosos dons espirituais, que ele deturpou e usou indevidamente. Quando chegar o tempo da virada das eras, terá de comparecer novamente. O olho do Filho do verdadeiro Soberano do mundo olhará para ele e cairá a decisão. Ou encontrará a vida no serviço e na luz do Filho, ou perecerá no fogo mortal da decomposição.”

Nisso Kvan caiu ao chão e não mais despertou

Desde aqueles tempos passaram-se vários milênios. O que a água inundou, tornou a devolver, para que mostrasse a sua verdadeira essência e desse os seus frutos. Do mesmo modo aguarda também o falso mestre Kvan o encerramento do acontecer da sua existência. Que reconheçam as suas mentiras aqueles que correm o risco de lhe cair novamente como vítimas, e que desperte nele o verdadeiro anseio pelo conhecimento do Altíssimo e ele redima tudo aquilo que ainda está ligado a ele